segunda-feira, 16 de maio de 2011

Escândalo interno
De um corpo subvertido de valores
Na ferida aberta no meu estômago
Está meu vômito engolido novamente
A repetição do podre, do pobre,
Do nada que me faz fraco
Pessoas do avesso
Pessoas que confudem
Que se iludem, que se misturam
Eu não quero acreditar em quem sou, em quem és
Espero ansiosa a morte
A morte do sofrer
Do me ver
A morte do desacreditar
Essa agonia sem fim
Esse ser umano ou humano
De fezes e falas
De ferida e de flor
E beleza e estranheza
Não me reconheço em nada
Em coisa alguma
Em coisa pessoa alguma
Gosto do cílio que cai lentamente
Daquele canto de olho perverso
Desse olhar imerso no nada
Gosto do oco, do louco, do vazio, da falta
Do seu ombro esquerdo
Dos seus olhos cansados e vermelhos
Da olheira que se inicia como se coresse em direção ao rio aquele mar de lágrimas quentes
Que se transformam em frias perguntas
Que se perdem perigosamente dentro de nós
Gosto do que não sei, do que não vejo, do impreciso, do indeciso
Porque por ser desconhecido ainda não dói, ainda não sente, ainda não é, ainda não ama
Eu não quero mais pensar
Pensar dói
Pensar ofende
Pensar perfura
Pensar machuca
Pensar traz morte
Traz  enjôo
Quero ficar só, sozinha no meio do nada
Talvez no meio daquele vômito engolido novamente no meu estômago
Só com a lembrança do seu cílio que cai
Do seu triste e perverso canto de olho
Do seu ombro esquerdo
E do seu iniciar de olheiras
No meio de uma grande e infinita plantação de pontos de interrogação
Cuja grama é verde, verde.

Maria Amélia

sexta-feira, 29 de abril de 2011

Maníacos de Qualidade

Antes de fugir para o Brasil, D. Maria I já se encontrava louca. Passava por períodos de frenesi e supunha que o seu próprio corpo estava oco. No Rio de Janeiro, imaginava que o Diabo se escondia no Pão de Açúcar. Como foi que a vida sexual de D. Afonso VI e os seus órgãos genitais acabaram escrutinados num tribunal que ambicionava demonstrar que o soberano era impotente, louco e incapaz de governar? Hoje é possível entender os bastidores das ações destes monarcas?

O Marquês de Pombal encontrar-se-ia tão obcecado com os jesuítas que só admitia conversas que os visassem. Entre os muitos que encarcerou e matou, conta-se o padre Malagrida. Qual dos dois era menos equilibrado? O iluminista que do beato fez herege para o queimar na fogueira ou o roupeta-preta que assumia a autoria de milagres e exorcismos? Um dia, Antero de Quental sentou-se num banco de um jardim público e deu dois tiros na cabeça. Porque foi que esse poeta-herói encerrou assim a sua vida? Fernando Pessoa revelou, desde cedo, uma grande preocupação com a sua própria sanidade mental, adoptando diferentes classificações psiquiátricas para si mesmo. Estaria louco ou apenas com medo?

A psicóloga clínica Joana Amaral Dias traça o retrato psicológico destas e de outras personagens tidas como loucas. Baseada numa investigação histórica cuidada e na leitura de escritos e registos biográficos e autobiográficos - cartas, diários, etc. -, a autora revela-nos a dor psiquíca destas figuras, bem como o seu respectivo diagnóstico clínico.

Porém Joana Amaral Dias vai mais longe e, nesta viagem aos universos mentais de portugueses célebres, questiona os rótulos com que estes foram marcados e os tratamentos a que foram sujeitos - da fogueira a sanguessugas, dos banhos gelados aos choques eléctricos, das tareias ao apedrejamento.

Uma reflexão original sobre a forma como ao longo dos tempos a sociedade encarou a doença mental e acerca das alianças que a Psiquiatria estabeleceu com o poder e a própria loucura.
Maníacos de Qualidade de Joana Amaral Dias
Pessoas maníacas de qualidade é uma expressão do séc. XXVIII, na qual  era empregue para designar indivíduos célebres com psicopatologia.



                       Histero-Neurastênico
"Começo pela parte psiquiátrica. A origem dos meus heterónimos é o fundo traço de histeria que existe em mim. Não sei se sou simplesmente histérico, se sou, mais propriamente, um histero-neurasténico. Tendo para esta segunda hipótese, porque há em mim fenómenos de abulia que a histeria, propriamente dita, não enquadra no registo dos seus sintomas. Seja como for, a origem mental dos meus heterónimos está na minha tendência orgânica e constante para a despersonalização e para a simulação. Estes fenómenos — felizmente para mim e para os outros — mentalizaram-se em mim; quero dizer, não se manifestam na minha vida prática, exterior e de contacto com os outros; fazem explosão para dentro e vivo-os eu a sós comigo. Se eu fosse mulher — na mulher os fenómenos histéricos rompem em ataques e coisas parecidas — cada poema de Álvaro de Campos (o mais histericamente histérico de mim) seria um alarme para a vizinhança. Mas sou homem — e nos homens a histeria assume principalmente aspectos mentais; assim tudo acaba em silêncio e poesia.

Isto explica, tant bien que mal, a origem orgânica do meu heteronimismo. Vou agora fazer-lhe a história directa dos meus heterónimos. Começo por aqueles que morreram, e de alguns dos quais já me não lembro — os que jazem perdidos no passado remoto da minha infância quase esquecida.

Desde criança tive a tendência para criar em meu torno um mundo fictício, de me cercar de amigos e conhecidos que nunca existiram. (Não sei, bem entendido, se realmente não existiram, ou se sou eu que não existo. Nestas coisas, como em todas, não devemos ser dogmáticos). Desde que me conheço como sendo aquilo a que chamo eu, me lembro de precisar mentalmente, em figura, movimentos, carácter e história, várias figuras irreais que eram para mim tão visíveis e minhas como as coisas daquilo a que chamamos, porventura abusivamente, a vida real. Esta tendência que me vem desde que me lembro de ser um eu, tem-me acompanhado sempre, mudando um pouco o tipo de música com que me encanta, mas não alterando nunca a sua maneira de me encantar.

Lembro, assim, o que me parece ter sido o meu primeiro heterónimo, ou, antes, o meu primeiro conhecido inexistente — um certo Chevalier de Pas dos meus seis anos, por quem escrevia cartas dele a mim mesmo, e cuja figura, não inteiramente vaga, ainda conquista aquela parte da minha afeição que confina com a saudade. Lembro-me, com menos nitidez, de uma outra figura, cujo nome já não me ocorre mas que o tinha estrangeiro também, que era, não sei em quê, um rival de Chevalier de Pas… Coisas que acontecem a todas as crianças? Sem dúvida — ou talvez. Mas a tal ponto as vivi que as vivo ainda, pois que as relembro de tal modo que é mister um esforço para me fazer saber que não foram realidades.

Esta tendência para criar em torno de mim um outro mundo, igual a este mas com outra gente, nunca me saiu da imaginação. Teve várias fases, entre as quais esta, sucedida já em maioridade. Ocorria-me um dito de espírito, absolutamente alheio, por um motivo ou outro, a quem eu sou, ou a quem eu suponho que sou. Dizia-o imediatamente, espontaneamente, como sendo de certo amigo meu, cujo nome inventava, cuja história acrescentava, e cuja figura — cara, estatura, traje e gesto — imediatamente eu via diante de mim. E assim arranjei, e propaguei, vários amigos e conhecidos que nunca existiram, mas que ainda hoje, a perto de trinta anos de distância, ouço, sinto, vejo. Repito: sinto, vejo… E tenho saudades deles.”

in Carta a Adolfo Casais Monteiro sobre a gênese dos heterónimos, de 13 de Janeiro de 1935


http://www.rubedo.psc.br/Artigos/histneur.html
"Como termina um amor? - O quê? Termina? Em suma ninguém - exceto os outros - nunca sabe disso; uma espécie de inocência mascara o fim dessa coisa concebida, afirmada, vivida como se fosse eterna. O que quer que se torne objeto amado, quer ele desapareça ou passe à região da amizade, de qualquer maneira, eu não o vejo nem mesmo se dissipar: o amor que termina se afasta para um outro mundo como uma nave espacial que deixa de piscar: o ser amado ressoava como um clamor, de repente ei-lo sem brilho (o outro nunca desaparece quando e como se esperava). Esse fenômeno resulta de uma imposição do discurso amoroso: eu mesmo (sujeito enamorado) não posso construir até o fim de minha história de amor: sou o poeta (o recitante apenas do começo); o final dessa história, assim como a minha própria morte, pertence aos outros; eles que escrevam romance, narrativa exterior, mítica."

FRAGMENTOS DE UM DISCURSO AMOROSO

quinta-feira, 28 de abril de 2011

O coração era todo de ferro
Com corda para subir
Ou se enforcar


Precursor de mola
Que segue
Ou pára no tempo
Feito de pêlo de porco
Que por pouco
Acelerou minha vida
Por menos um pouco
Eu era nada!
Prestigiado era,
Mas o tempo passa rápido.

Maria Amélia
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“A linguagem é uma pele: esfrego minha linguagem contra o outro.
É como se eu tivesse palavras ao invés de dedos,
ou dedos na ponta das palavras.
Minha linguagem treme de desejo.

FRAGMENTOS DE UM DISCURSO AMOROSO



"Ninguém tem vontade de falar de amor, se não for para alguém."